Tem uma pergunta que eu sempre faço em uma reunião com um novo cliente. E quase sempre ela provoca alguns segundos de silêncio.
A pessoa chega preparada para falar de investimentos.
Mostra a carteira, comenta sobre os CDBs que possui, pergunta sobre um fundo que viu recentemente, compara taxas, fala sobre rentabilidade.
Até que eu pergunto:
“Por que você investe?”
É curioso como uma pergunta tão simples pode ser tão difícil de responder.
Não porque as pessoas não tenham objetivos. Elas têm. Querem se aposentar, comprar um imóvel, proteger a família, ajudar os filhos, começar um negócio, ter mais liberdade.
O que normalmente falta é uma conexão entre essas coisas e o dinheiro que está investido.
E isso revela um problema maior na forma como aprendemos a investir: começamos pela ferramenta antes de definir o que queremos construir.
Toda semana, te envio uma carta como essa pra te ajudar a investir melhor.
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O hotel vem depois do destino
A maioria das conversas sobre investimentos começa pelo produto.
Qual CDB paga mais? Qual fundo tem a menor taxa? Qual ação está barata? Qual ETF rendeu mais? Vale a pena trocar esse investimento por aquele?
São perguntas legítimas. O problema é quando elas se tornam o ponto de partida.
Porque, antes de saber qual investimento escolher, existe uma pergunta muito mais importante:
O que eu quero que esse dinheiro faça por mim?
Imagine que você está planejando uma viagem.
Primeiro escolhe para onde quer ir. Depois decide quando vai, quanto pode gastar, onde vai ficar e como chegar.
Ninguém começa escolhendo um hotel e, a partir dele, decide qual cidade visitar.
Com investimentos, fazemos exatamente isso.
Encontramos um produto interessante e depois tentamos descobrir onde ele se encaixa.
É assim que uma carteira pode acabar cheia de investimentos que parecem bons individualmente mas que, juntos, não formam uma boa estratégia.
Quando o produto vira o ponto de partida, ele começa a determinar a estratégia — quando deveria ser a estratégia a determinar o produto.
Dê um trabalho ao seu dinheiro
Quando pergunto “por que você investe?”, não estou procurando uma resposta bonita ou filosófica.
Quero saber qual trabalho aquele dinheiro precisa realizar.
Uma parte pode existir para dar segurança à família. Outra, para financiar a aposentadoria. Outra, para comprar um imóvel daqui a alguns anos. Outra pode estar sendo acumulada para uma oportunidade de negócio.
E cada uma dessas finalidades muda a forma como aquele dinheiro deve ser investido.
Se você vai precisar de determinado valor em um ano, não pode investi-lo pensando em um horizonte de vinte.
Se o objetivo é complementar sua renda na aposentadoria, não faz sentido avaliar essa parte da sua carteira pela mesma régua usada para avaliar uma reserva de liquidez.
Se uma parcela do patrimônio existe para oferecer segurança, não há razão para colocá-la em um investimento mais arrojado apenas porque existe a possibilidade de ganhar um pouco mais.
O investimento não tem um objetivo próprio. Quem tem objetivo é você.
Essa distinção parece simples, mas muda completamente a maneira de investir.
O dinheiro não está ali para vencer o CDI, superar o Ibovespa ou encontrar o produto que teve a maior rentabilidade no ano.
Ele está ali para fazer alguma coisa pela sua vida.
Não adianta ganhar o jogo errado
Quando o objetivo não está claro, a rentabilidade acaba virando a única régua disponível.
Você olha a carteira todos os dias. Compara com o CDI. Vê que outro investimento rendeu mais. Descobre um produto novo. Começa a pensar se deveria trocar.
E, sem perceber, transforma seus investimentos em uma competição permanente.
Sempre existe alguém ganhando mais.
Sempre existe um produto que, olhando para trás, parece ter sido melhor.
Sempre existe alguma coisa que você poderia ter feito diferente.
Só que esse jogo não tem linha de chegada.
Se você não sabe por que está investindo, qualquer diferença de rentabilidade parece importante.
E é aí que muita gente começa a tomar decisões ruins tentando melhorar uma carteira que nem sequer tem um objetivo claro.
Troca um investimento por outro porque encontrou uma taxa menor. Muda a estratégia porque determinado fundo ficou para trás. Aumenta o risco porque viu alguém ganhando mais.
Passa horas tentando otimizar os investimentos, sem perceber que está otimizando a parte menos importante da equação.
Quando o objetivo está claro, a relação com essas coisas muda.
Uma aplicação pode render menos que outra e ainda ser exatamente o que você precisava.
Pode ter uma taxa maior e continuar fazendo sentido.
Pode passar meses sem aparecer entre os investimentos mais rentáveis e, ainda assim, estar cumprindo perfeitamente o papel para o qual foi escolhida.
Isso não significa ignorar custos, riscos ou rentabilidade. Eles importam — e muito.
Mas precisam ser analisados dentro do contexto do objetivo.
Não existe investimento bom no vácuo.
Existe investimento adequado — ou inadequado — para determinada finalidade, prazo e situação.
Sua vida revela sua carteira
Essa é uma das razões pelas quais, em muitas reuniões, passo mais tempo falando sobre a vida do cliente do que sobre investimentos.
Quero entender o que ele pretende fazer nos próximos anos, quais são suas prioridades, o quanto ele precisa ter disponível, o que pode permanecer investido por mais tempo e quanto de risco faz sentido assumir.
Só depois disso começamos a falar sobre produtos.
Porque, quando você sabe o porquê, várias decisões ficam mais fáceis.
Você sabe quanto precisa ter em liquidez.
Sabe com quanto pode correr mais risco.
Sabe quando uma queda faz parte do caminho.
Sabe quando uma taxa ou imposto merece atenção.
E, principalmente, sabe o que não precisa fazer.
Não precisa trocar de investimento toda vez que aparece algo pagando um pouco mais.
Não precisa perseguir o investimento da moda.
Não precisa acompanhar a carteira todos os dias.
Não precisa transformar cada decisão em uma tentativa de otimização.
Não precisa reagir a cada situação como se ela exigisse uma mudança.
Você tem uma estratégia. E os investimentos existem para executá-la.
Investir bem não é encontrar constantemente algo melhor.
É construir uma estratégia que faça sentido para a vida que você quer ter.
Faça uma coisa esta semana

Abra o aplicativo do banco ou da corretora e, para cada produto dentro da sua carteira de investimentos, complete a frase:
“Eu tenho esse dinheiro investido porque...”
E não aceite como resposta “para render”.
Continue:
“Eu tenho esse dinheiro investido porque quero comprar...”
“Porque quero poder parar de trabalhar aos...”
“Porque quero ter liberdade para...”
Você vai perceber que alguns investimentos têm uma função muito clara.
Mas também vai descobrir que outros foram comprados apenas porque alguém recomendou, porque estavam com uma boa taxa ou simplesmente porque pareciam uma boa oportunidade na época.
Isso não significa que você precisa sair vendendo tudo.
Significa apenas que está na hora de fazer a pergunta que deveria ter vindo antes:
Por que eu invisto?
Depois dela, chega a hora de falar sobre produto, taxa, rentabilidade, risco, liquidez e imposto.
Antes dela, você está apenas escolhendo ferramentas — sem saber o que precisa construir.
Se você quiser fazer essa reflexão comigo ou entender se os investimentos que você tem hoje são as ferramentas que você precisa, clique aqui e agendamos uma conversa.
Ou, se quiser apenas conversar sobre esse assunto ou tirar alguma dúvida, responda esse e-mail e me conta um pouco sobre você.
Vejo pessoalmente todas as respostas.
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Quando um homem não sabe para qual porto está navegando, nenhum vento é favorável.
Obrigado pela leitura!
Gustavo Gubert, CFP®
@gustavogubert




