Você comprou uma ação por R$ 100. Hoje, ela vale R$ 60.

A empresa enfrenta dificuldades, as perspectivas pioraram e, se você tivesse esse dinheiro disponível hoje, não compraria essa mesma ação.

Mesmo assim, você continua com ela na carteira.

Seu argumento é simples: vender agora significa assumir um prejuízo de 40%. Melhor esperar o preço voltar aos R$ 100 e sair sem perder dinheiro, certo?

Só que existe um problema nessa lógica: não é porque você pagou R$ 100 por uma ação que ela vai voltar a valer R$ 100 algum dia.

O mercado não sabe quanto você pagou. E o dinheiro que você “perdeu” não volta só porque você decidiu esperar.

Ainda assim, muitos investidores passam anos presos a um investimento justamente por se fixarem ao preço pelo qual compraram.

Por que é tão difícil aceitar uma perda?

Em 1979, os psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky publicaram um estudo que ajudou a transformar nossa compreensão sobre como as pessoas tomam decisões sob incerteza.

A pesquisa deu origem à teoria da perspectiva, que demonstrou, entre outras coisas, que as pessoas tendem a sentir o impacto de uma perda com mais intensidade do que o prazer de um ganho equivalente.

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Na prática, perder R$ 10 mil costuma incomodar mais do que ganhar R$ 10 mil traz de satisfação.

Isso ajuda a explicar por que vender um investimento no prejuízo é tão desconfortável. Enquanto você não vende, ainda pode alimentar a esperança de recuperar o dinheiro. Basta esperar mais um pouco, torcer por uma melhora ou encontrar uma notícia que confirme sua expectativa.

Vender, por outro lado, torna a perda definitiva do ponto de vista daquela operação. Você precisa aceitar que o dinheiro não voltará por meio daquele investimento e que sua decisão original pode ter sido equivocada.

É uma experiência desagradável. E, para evitar esse desconforto, podemos acabar tomando decisões que prejudicam nosso patrimônio.

O mais curioso é que, enquanto tentamos evitar a sensação de ter perdido dinheiro, corremos o risco de perder ainda mais.

O preço de compra virou uma âncora

Existe outro mecanismo psicológico envolvido nessa história: a ancoragem.

Quando tomamos uma decisão, temos a tendência de dar um peso excessivo à primeira informação que usamos como referência. No caso de um investimento, essa referência normalmente é o preço de compra.

Você comprou a ação por R$ 100 e passa a avaliar tudo a partir desse número. A R$ 80, ela parece barata. A R$ 60, parece uma oportunidade de recuperação. A R$ 40, talvez você pense que vender agora seria um absurdo.

Mas observe o que aconteceu: a referência para sua decisão deixou de ser o valor que o investimento tem hoje e passou a ser o valor que ele teve para você.

O preço de compra é uma informação importante para calcular seu resultado e avaliar questões tributárias. Mas não determina o potencial de retorno futuro de um investimento.

Uma ação que caiu de R$ 100 para R$ 60 pode estar barata, cara ou em seu valor justo. Tudo depende do negócio, das perspectivas e do preço que faz sentido pagar por ele.

Da mesma forma, uma ação que subiu de R$ 60 para R$ 100 pode continuar sendo uma boa oportunidade ou ter se tornado cara demais.

O passado explica o resultado que você teve até agora. Mas não determina o resultado que você vai ter daqui para a frente.

Você compraria esse investimento hoje?

Existe uma pergunta que gosto de usar para analisar esse tipo de situação:

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Se você tivesse o dinheiro disponível hoje, compraria esse mesmo investimento, pelo preço atual e considerando as perspectivas que existem agora?

Imagine que você tenha R$ 60 mil em uma ação que comprou por R$ 100 mil. A empresa perdeu competitividade, seus resultados pioraram e o cenário futuro não está muito favorável.

Você investiria os R$ 60 mil nessa mesma ação se esse dinheiro estivesse na sua conta?

Se a resposta for não, é preciso entender por que continua com esse investimento.

Talvez existam razões legítimas para manter a posição. Uma queda de preço não significa, por si só, que o investimento deixou de ser bom. A empresa pode estar passando por uma dificuldade temporária, e o preço atual pode oferecer um retorno potencial interessante.

Mas, se a única razão para continuar investido é esperar que o preço volte ao valor de compra, você não está necessariamente tomando uma decisão sobre o futuro. Está tentando corrigir o passado.

E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

O dinheiro que você tem hoje poderia estar aplicado em investimentos diferentes, cada um com suas perspectivas de retorno. Manter uma posição significa escolher continuar exposto a ela, mesmo que você não faça nenhuma operação.

Por isso, não vender também é uma decisão. E merece o mesmo cuidado que você teve ao comprar.

Não é sobre vender no prejuízo.

É importante não levar essa reflexão ao extremo.

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Vender todo investimento que cai seria tão equivocado quanto manter qualquer investimento ruim na esperança de recuperar o dinheiro.

O mercado oscila, empresas enfrentam dificuldades temporárias e até boas decisões podem apresentar resultados negativos durante algum tempo.

O objetivo não é evitar perdas a qualquer custo. É avaliar cada investimento com base nas informações disponíveis hoje, considerando as alternativas, os riscos, os custos de uma eventual venda e a função daquele ativo na carteira.

Também precisamos aceitar que tomar uma decisão ruim faz parte de investir. Ninguém acerta todas as vezes.

O problema começa quando o desconforto de admitir um erro passa a determinar nossas escolhas.

Nesse momento, deixamos de cuidar do patrimônio para tentar proteger nosso orgulho.

E o mercado não recompensa nossa insistência, não reconhece nosso esforço e não tem obrigação de nos devolver o dinheiro que perdemos.

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Seu investimento não precisa confirmar que você estava certo no passado. Precisa estar bem posicionado para o futuro.

Na próxima vez que encontrar um investimento que está dando prejuízo, não pergunte apenas quanto precisa subir para você recuperar o dinheiro.

Pergunte se, com as informações que tem hoje, ele ainda merece ocupar aquele espaço na sua carteira.

A resposta pode ser continuar investido. Mas, se for essa a decisão, que seja porque o investimento faz sentido — e não porque você ainda não conseguiu aceitar o preço que pagou.

👇🏻 Se leu até aqui, lembre de avaliar essa edição na pesquisa logo abaixo.

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As perdas pesam mais do que os ganhos.

Daniel Kahneman e Amos Tversky, Prospect Theory (1979)

Obrigado pela leitura!
Gustavo Gubert, CFP®
@gustavogubert

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